terça-feira, 31 de março de 2009

Esta não é a minha terra!!

Eu sou daquelas pessoas que gosta de pequenos luxos – e um destes dias coloco aqui um post que vos elucide mais sobre mim mas neste momento dedicar-me-ei apenas a um desses luxos.
A fruta.
Liberta-me do stress porque naquele momento parece que estou a comer o que de mais natural existe… algo que não é manufacturado. Melhor ainda se puder dar umas belas trincas e lambuzar-me com o suco da fruta em questão.
Junto a isso o facto de gostar de dizer que de vez em quando vou à mercearia – é chique não é? Mas é simplesmente pelo facto de ali a fruta parecer mais real, a fruta no supermercado não sabe ao mesmo, está amontoada, não tem cheiro, está fria dos frigoríficos… já não parece fruta.
Bom… não querendo divagar muito, isto tudo para dizer que para mim fruta é um luxo, logo um prazer extremo.
Vinha pensativa daquele suposto relax pós-almoço e resolvi parar para comprar fruta, quando fui abordada por um dos muitos vendedores da revista Cais que, perante a minha não vontade em comprar a revista, me pede que então lhe dê uma fruta porque tem em casa dois filhos.
Sempre aprendi com os meus pais que não se nega comida – A NINGUÉM.
Eis algo de que me orgulho e que me compele de forma natural.
E quem nunca passou fome, que é a generalidade das pessoas que me rodeiam, deveria saber apreciar bem o valor que ‘comer’ tem. Não é comer gourmet. Comer, só isso.
“Escolha a fruta que quer” e ele ainda me pergunta qual é a mais barata. “Escolha a quer, a que tem vontade de comer”.
Entro na mercearia – qual twilight zone – para pesar o que eu tinha escolhido para mim e sou presenteada com o que de melhor tem o ser humano.
“Olhe que a menina se lhe diz que pode escolher ele escolhe a fruta mais cara”
Estremeci e pensei que não seria por mal mas sim por bestial ignorância aquela informação, mas nem tive tempo de me refazer.
“Olhe que ele enche um cesto fruta se a menina não controla” - Leia-se «Mais uma que pensa que é da legião dos bonzinhos…”
“Está a ser boazinha vai ver ainda acaba a pagar um frango assado com arroz para acompanhar e tudo” - Leia-se «Estúpida consumidora, a gaja acha mesmo que é a Madre Teresa de Calcutá»
Eis quando a minha capacidade de abstracção já não subsiste mais e, em bom som no meio de uma mercearia de gente que entretanto se tinham juntado num rebanho sem questionar.
“Parece-me a mim que quem vai pagar as bananas sou eu e isso não lhe diz respeito… e eu quero dar 5, ponha-se no seu lugar …”
Leve… demasiado leve eu sei… mas naquele momento se pudesse tinha virado verdadeiro boneco animado em que eu era um super-herói que batia no mau até ele jorrar o líquido verde que lhe corre nas veias.
“Cada um dá o que quer” diz a beata por trás do balcão meio a medo do colega e na tentativa de deitar água na fervura.
Gente de merda é o que é. Comem, cagam, mas não sabem pensar. São daquela ceifa de gente que acha que dar é alimentar vícios, ou então pior, daqueles que já passaram algumas dificuldades e acham que os outros têm de sofrer ainda mais, ou então dos que gritam vivamente “vai p’rá tua terra” quando normalmente eles próprios até são de uma terra que não aquela onde estão – vivem apartados de tudo e à boca cheia vomitam que o país não anda é por causa de preguiçosos, drogados e pedintes. Metem nojo!!
Não existe muito que se possa dizer de gentinha assim. Ou então temos de dizer muito na esperança de lhes condicionarmos os pensamentos… se é que conseguem ter a desenvoltura mental de um animal – muito ao jeito de Pavlov.
Quero cá eu bem saber se as bananas são para ele ou para os filhos, ou se ele tem filhos, se este a quem dei é um dos mil mentirosos que se cruzam e pedincham sem real necessidade… não sou ninguém para julgar os outros e não consegui negar comida. Se calhar precisa mesmo.
Eu precisei de dar, não para me sentir bem mas porque não se nega comida a ninguém.
Gente de merda que não tem consciência social, que não sabe o que é ser Humano, que deixou passar as maiores lutas humanas por igualdade, decência, fraternidade... não estiveram lá e não sabem que existiram.
Posso escolher e não quero não deixar de ser assim como sou porque sei que, de forma natural, existem muitas pessoas assim.
Posso dar-me ao luxo de me indignar porque, de facto, ‘isto’ não é parte de mim e esta não é, certamente, a minha terra.

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